Squadra passa a apostar em Nubank e Mercado Livre após rever tese sobre as empresas

Gestora coloca as duas companhias entre suas principais posições e transforma, pela primeira vez, uma antiga aposta contra uma ação em investimento comprado

A Squadra Investimentos passou a tratar Nubank e Mercado Livre como duas de suas principais apostas. As posições foram destacadas em uma carta recente aos cotistas, na qual a gestora atribuiu a decisão às vantagens competitivas, à capacidade de execução e ao uso de tecnologia pelas duas companhias.

O movimento chama atenção especialmente no caso do Nubank. Segundo a gestora, é a primeira vez em sua história que uma ação anteriormente utilizada em uma posição vendida — conhecida no mercado como short — passa a integrar a carteira comprada, ou long.

Na prática, isso significa uma mudança relevante de avaliação. Em uma posição vendida, o investidor busca ganhar com a desvalorização do ativo. Ao comprar a ação, passa a esperar que a empresa gere valor e que o papel se valorize no longo prazo. A mudança não elimina os riscos, mas mostra que a Squadra considera que os fundamentos da companhia evoluíram o suficiente para justificar uma nova tese.

Nubank e Mercado Livre agora aparecem entre as maiores posições dos fundos da gestora, ao lado de empresas brasileiras como Equatorial e Energisa. Comandada por Guilherme Aché, a Squadra administra aproximadamente R$ 16 bilhões, segundo informações divulgadas pelo Brazil Journal.

Inteligência artificial pesou na decisão

A mudança acontece em um momento de incerteza sobre quais empresas serão beneficiadas ou prejudicadas pelo avanço da inteligência artificial. Parte do mercado passou a tratar companhias de tecnologia e serviços digitais como possíveis perdedoras, diante da expectativa de que novos produtos baseados em IA possam reduzir barreiras de entrada e aumentar a concorrência.

A Squadra adota uma leitura diferente para Nubank e Mercado Livre. Na avaliação da gestora, as duas empresas construíram sistemas tecnológicos modernos, grandes bases de dados e equipes preparadas para aplicar modelos preditivos em áreas como crédito, atendimento, publicidade, busca de produtos e recomendação.

Isso não significa que a inteligência artificial produzirá ganhos automáticos. A própria gestora reconhece que a implementação é complexa e que a qualidade da execução deverá separar as companhias que realmente conseguirão capturar valor daquelas que apenas aumentarão despesas.

Os resultados mais recentes oferecem alguns sinais favoráveis à tese, mas também mostram pontos de atenção.

Profissional analisando dados e modelos de inteligência artificial em dois monitores.

O que fez a Squadra mudar de opinião sobre o Nubank

Um dos principais argumentos da gestora está na evolução dos modelos de concessão de crédito do Nubank. A empresa utiliza grandes volumes de dados para definir limites, preços e ofertas para cada perfil de cliente. Para a Squadra, essa capacidade de análise se transformou em uma vantagem competitiva diante de instituições com sistemas mais antigos e estruturas operacionais mais caras.

No segundo trimestre de 2026, o Nubank chegou a 139 milhões de clientes nos países em que atua. A receita trimestral alcançou quase US$ 5,9 bilhões, crescimento de 39% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto o lucro líquido superou US$ 1 bilhão pela primeira vez.

A carteira de crédito avançou 37% em um ano, para US$ 39,4 bilhões. Desse total, US$ 26 bilhões estavam concentrados em cartões de crédito, US$ 10,3 bilhões em empréstimos sem garantia e US$ 3,1 bilhões em operações com garantia.

Os números também exigem cautela. O indicador de inadimplência acima de 90 dias subiu de 6,55% no primeiro trimestre para 6,9% no segundo trimestre de 2026. A companhia atribuiu parte do movimento à sazonalidade e à expansão deliberada para clientes com maior risco e retorno esperado.

Portanto, a tese dependerá não apenas do crescimento da carteira, mas da capacidade de o Nubank precificar corretamente o risco e controlar as perdas com calotes ao longo do ciclo econômico.

México reforça a estratégia internacional

A operação mexicana também aparece entre os fatores considerados pela Squadra. Depois de adaptações nos primeiros anos, o Nubank conseguiu formar uma base expressiva de depósitos e clientes em um mercado bancário ainda concentrado.

Ao final de junho de 2026, a instituição possuía 15,8 milhões de clientes no México e US$ 5,7 bilhões em depósitos no país. Em julho, a base alcançou 16 milhões. A transformação da operação local em banco ampliou as possibilidades de oferta de produtos e de utilização dos depósitos para financiar crédito.

O desafio será transformar escala em rentabilidade sem elevar excessivamente o custo de aquisição de clientes ou a inadimplência. Também existe a reação dos bancos tradicionais, que podem reduzir tarifas, melhorar aplicativos e disputar os mesmos públicos atendidos pelas fintechs.

Entrada nos Estados Unidos divide opiniões

Outro ponto da tese é o plano de expansão para os Estados Unidos. Em janeiro de 2026, o Nubank recebeu aprovação condicional do regulador americano para criar o Nubank, N.A., um banco nacional digital.

Caso cumpra as exigências e obtenha as autorizações definitivas, a instituição poderá oferecer contas de depósito, cartões de crédito, empréstimos e custódia de ativos digitais. A empresa informou que pretende capitalizar a nova instituição em até 12 meses e iniciar sua operação em até 18 meses, conforme os prazos regulatórios.

O projeto é ambicioso porque coloca o Nubank diante de um mercado altamente competitivo e regulado. A visão da Squadra é que existe espaço para uma operação digital voltada ao público de massa e com o cartão de crédito como porta de entrada. Grandes bancos americanos costumam concentrar parte relevante de seus esforços nos clientes de maior renda, enquanto muitas fintechs evitam assumir diretamente o risco de crédito.

Mesmo assim, a operação exigirá capital, contratação de equipes, adaptação regulatória e conhecimento do comportamento do consumidor americano. O sucesso obtido no Brasil ou no México não garante que o modelo será repetido nos Estados Unidos.

Mulher usando cartão e celular em centro financeiro, ilustrando a expansão do Nubank

Mercado Livre sacrifica margem para acelerar crescimento

No Mercado Livre, a Squadra enxerga uma estratégia semelhante à adotada pela companhia em outros momentos: reduzir a rentabilidade de curto prazo para ampliar a escala do ecossistema.

Em 2025, a empresa diminuiu de R$ 79 para R$ 19 o valor mínimo de compras elegíveis ao frete grátis no Brasil. A medida estimulou pedidos menores e mais frequentes, mas aumentou os gastos logísticos e pressionou o resultado da operação de comércio eletrônico.

O movimento lembra a estratégia iniciada em 2017, quando o Mercado Livre ampliou os subsídios ao frete enquanto a Amazon avançava na América Latina. Naquele período, o lucro foi pressionado, mas o volume vendido continuou crescendo e a companhia ganhou escala.

Os resultados do segundo trimestre de 2026 mostram os dois lados dessa estratégia. A receita líquida e financeira do Mercado Livre avançou 50% em um ano, para US$ 10,2 bilhões. O volume bruto de mercadorias negociadas, conhecido como GMV, chegou a US$ 21,9 bilhões, alta de 36% em moeda constante.

No Brasil, o GMV cresceu 39% em moeda constante e o número de itens vendidos aumentou 56%. A companhia afirma que clientes conquistados após a redução do limite para frete grátis estão comprando com maior frequência, em mais categorias e com maior retenção.

Ao mesmo tempo, o lucro operacional recuou 17%, para US$ 683 milhões, e a margem operacional caiu para 6,7%. O lucro líquido foi de US$ 466 milhões, redução de 11% na comparação anual. Os números mostram que a aceleração das vendas veio acompanhada de um custo relevante.

Trabalhadores separando encomendas em centro de distribuição do comércio eletrônico

Mercado Pago amplia o alcance do grupo

A tese do Mercado Livre não depende apenas do comércio eletrônico. O Mercado Pago tornou-se um dos principais motores de crescimento do grupo e disputa clientes diretamente com bancos e outras fintechs.

No segundo trimestre de 2026, a plataforma chegou a 88 milhões de usuários ativos mensais, crescimento anual de 30%. O volume total de pagamentos superou US$ 100 bilhões pela primeira vez, enquanto os recursos mantidos por clientes na plataforma alcançaram US$ 23 bilhões.

A carteira de crédito do ecossistema superou US$ 16 bilhões, alta de 75% em um ano. Somente a carteira de cartões chegou a US$ 7,7 bilhões, depois da emissão de 2,6 milhões de novos cartões durante o trimestre.

Essa expansão pode aumentar receitas e aprofundar o relacionamento com clientes, mas também eleva a exposição ao risco de crédito. Quanto mais rapidamente a carteira cresce, maior é a importância de acompanhar a qualidade das novas safras, as provisões para perdas e o comportamento da inadimplência.

Como o Mercado Livre já utiliza inteligência artificial

O Mercado Livre afirma ter concluído a implantação de uma nova arquitetura de busca baseada em inteligência artificial em seus cinco maiores mercados. Segundo a companhia, a melhora na conversão e nos cliques compensou o custo de utilização de modelos de terceiros.

A empresa também usa IA em ferramentas de publicidade para vendedores, recomendações de orçamento e tarefas de engenharia. Essas aplicações ajudam a explicar por que a Squadra considera que a tecnologia pode acelerar receitas e produtividade, em vez de apenas ameaçar o modelo de negócios.

Parte dessas informações, porém, é divulgada pelas próprias companhias. O benefício econômico precisa continuar aparecendo em indicadores como conversão, receita, produtividade, custo por cliente e retorno sobre o capital.

Quais são os riscos da aposta

A mudança de posição da Squadra é relevante, mas não representa uma garantia de valorização. Entre os principais riscos estão:

  • aumento da inadimplência nas carteiras de Nubank e Mercado Pago;
  • perda de rentabilidade provocada por investimentos agressivos;
  • concorrência de bancos, varejistas, fintechs e empresas globais de tecnologia;
  • dificuldade do Nubank para executar sua entrada nos Estados Unidos;
  • mudanças regulatórias nos diferentes países;
  • custos maiores do que o esperado para desenvolver e operar soluções de inteligência artificial;
  • valorização excessiva das ações em relação aos resultados futuros.

Também é importante lembrar que cartas de gestores apresentam teses construídas para horizontes longos. As posições podem ser reduzidas, ampliadas ou encerradas sem aviso imediato ao público.

O que o investidor pode aprender com a mudança

O aspecto mais importante da decisão talvez não seja simplesmente descobrir quais ações a Squadra comprou. A mudança mostra que uma tese de investimento não deve ser permanente quando os fatos mudam.

A gestora já enxergou motivos para apostar contra o Nubank. Depois de acompanhar a evolução da empresa, seus modelos de crédito, sua expansão internacional e seus resultados, passou a enxergar uma oportunidade de compra. Rever uma opinião diante de novas evidências não é incoerência; faz parte do processo de análise.

Para o pequeno investidor, porém, copiar posições de grandes fundos sem conhecer preço de entrada, tamanho da exposição e estratégia pode ser arriscado. A compra de uma ação por uma gestora profissional deve servir como ponto de partida para estudo, e não como recomendação automática.

Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de compra ou venda de ações. Dados financeiros e posições de fundos podem sofrer alterações.

Fontes consultadas

Redação GranAlta
Redação GranAlta

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